(Foto: arquivo JN)
Morreu Joaquim Letria, aos 82 anos. A notícia da morte foi
confirmada à Lusa por fonte familiar, que adiantou que o jornalista se
encontrava há algum tempo debilitado, mas não estava doente.
Nascido em Lisboa em 1943, Letria ingressou no jornalismo em
1962, iniciando a carreira no extinto Diário de Lisboa. Foi repórter da
Associated Press e correspondente da agência Deutsche-Presse Agentur até 1970.
Mudou-se para Londres, pouco depois, para trabalhar como programme assistant na
BBC.
Em 1974 regressou a Portugal, no pós-25 de Abril, para ser director de informação na RTP. Foi por essa altura que teve um desentendimento com o então Presidente da República António Spínola, que chegou a defender o despedimento do jornalista. Não tardou que Letria recebesse o Prémio da Imprensa na categoria Televisão, atribuído pela Casa da Imprensa, pela “vivacidade e tom pessoal que conferiu ao seu trabalho”.
Joaquim Letria fundou os semanários O Jornal (hoje revista
Visão), o Tal&Qual e as revistas Sábado e Tempo Livre, dos quais foi o
primeiro director. Foi eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas e
porta-voz do Presidente da República Ramalho Eanes até 1986.
A partir de 1987 dedicou-se ao ensino. Foi professor
auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa e professor convidado do Instituto
Superior das Ciências da Informação e da Administração, colaborando na criação
e reestruturação de conteúdos e formatos de programas de TV e rádio e na
redefinição de jornais e revistas, integrado em grupos de especialistas de
Londres, Madrid e Munique.
Esta é a notícia do Público, que, como a generalidade das restantes, omite a passagem de Joaquim Letria pela ANOP.
O depoimento de José Manuel Barroso:
Há momentos em que é difícil falar de companheiros e amigos. Não porque se não deva, mas porque dói. Do Joaquim, hoje, é. Pelas voltas da vida, o Joaquim e eu cruzamo-nos em momentos particulares.
Da primeira vez, tínhamos ambos 16 anos, numa militância estudantil e política. Calhou eu suceder ao J. Letria, enquanto presidente de uma organização chamada Pro-Associação dos Liceus - uma daquelas coisas que o PCP inventou, no tempo da ditadura, para reunir jovens adolescentes, estudantes lucrais, e os encarreirar para a militância sob a capa do associativismo. O Joaquim e eu chegamos, deste modo, ao PCP e às lutas académicas.
Quando eu, já jornalista, terminei a tropa (jovem capitão)
fui convidado pela gente de O Jornal para ingressar neste semanário. O director
de então chama-se Joaquim Letria. A redação desta espécie de cooperativa de
jornalistas (dissidentes do Diário de Notícias sob direção comunista) tinha
nomes grados. José Carlos de Vasconcelos, Silva Pinto, Sarsfield Cabral,
Fernando Assis Pacheco, Bessa Murias, Almeida Martins, entre outros. Com eles
aprendi muito.
De O Jornal, passei para a agência Anop, a agência noticiosa
pós 25 de Abril, pós ciclo PCP,
(antecedente da atual Lusa), da qual fui director e a qual profundamente
remodelei (com o Wilton Fonseca). Após essa modernização, a redação da Anop foi
acrescentada com outros grandes nomes do jornalismo, como grandes repórteres:
Antonio Mega Ferreira, Helena Vaz da Silva, Maria Antónia Palla, Hernâni
Santos, Jaime Antunes, e… Joaquim Letria.
Os nossos destinos cruzaram-se, assim, muitas vezes. A nossa amizade permaneceu sempre firme. Nestes momentos em que a memória assoma fortemente, tudo regressa. Como um champanhe da vida. E com o permanente sorriso do Joaquim, que apreciava coisas boas.

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